Madrugada, lua cheia e céu negro.
O homem, que há horas tentava dormir, possuía olheiras profundas. Seus olhos, cheios de medo, estavam escuros e não brilhavam.
Ele vivia numa pequena casinha, no interior de São Paulo. Tomara uma decisão recentemente: queria passar o resto de sua vida no campo, sem preocupações, longe da cidade grande. Longe do barulho, longe da poluição, longe do transito intenso. Queria ser feliz e ter uma vida tranquila, somente ele e sua pequenina casinha.
O local era realmente bonito. Muito simples, é claro. Mas as paisagens, as árvores e o ar fresco, contavam como preciosos valores e era o que o motivava a viver lá.
Uma coruja piava na floresta, à luz da lua, e mantinha seus grandes olhos focados em sua presa: um pequeno ratinho.
Enquanto tentava dormir e afastar os piores pensamentos, o homem se imaginava fora das paredes de sua casa, no meio do mato. Tinha medo, e suas olheiras estavam assustadoras. O piado era um ruído e um mistério na escuridão; o que fez o homem se encolher e se cobrir com o lençol. Ele estava sendo vigiado...
A coruja abriu as majestosas asas e voou na direção do rato, com suas garras à frente.
E o pobre homem, que se dizia feliz, não conseguia dormir de tanto medo e aflição que sentia. Na cidade, não sentiria isso. Na cidade ele ouviria somente o barulho dos carros, a cachorra da vizinha latindo, talvez a música alta de alguma festa de aniversário... Mas o medo não existiria. Sua escolha o fez se afogar em águas misteriosas; ele estava enlouquecendo, aos poucos.
A coruja matara o rato e já o levava para seus filhotes, que estavam famintos.
O homem suava em sua cama. Ele fechava os olhos e tentava de tudo, mas não dormia. O medo ainda estava lá, fazendo seu coração bater cada vez mais depressa.
A coruja voava e procurava outra presa para seus filhotes que continuavam desesperados e piavam de fome.
Ele, apavorado, soltou um berro.
A coruja quebrou a janela do quarto do homem e piou tão alto que o quase fez ficar surdo. O pobre coitado soltou outro berro e caiu de corpo mole em sua cama.
A coruja o fitava com os grandes olhos traiçoeiros. Ela assistia e examinava o homem com cautela e interesse.
Porém ele, por sua vez, havia sofrido um ataque cardíaco e morrera instantaneamente.
Naquela madrugada, as corujas atacariam. E se alimentariam da mais sincera carne e alma. Sem dó, nem piedade, as corujas fariam a festa e comeriam um pobre homem, cujo seu objetivo, era nada mais e nada menos, do que buscar a paz.

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